sábado, 30 de junho de 2012

E-mail de um amor indiscreto



Olá.
Venho por meio deste esclarecer algumas coisas que ficaram mal interpretadas para você desde o término de nossa convivência (prefiro chamar dessa forma o que muitas pessoas tratam por relação). Essa formalidade é para você não pensar que temos alguma intimidade, nem mesmo por e-mail. Pensando bem, você não merece formalidade alguma. Você merece alguém que lhe diga boas verdades para parar de ser convencido e eu vou lhe fazer este favor. Acordei meio solidária hoje, sabe? Às vezes as pessoas superiores (eu), se é que você sabe o que é isso, devem ajudar as inferiores (você) a enxergarem que o mundo não gira por sua existência. E é só por isso que estou enviando esse e-mail.
Antes que você pense que eu pedi seu e-mail para alguém, esteja certo de que eu mesma resolvo meus problemas e peguei no seu facebook. Não, eu não fico fuçando sua página, até porque tenho mais o que fazer, mas este caso é uma mera exceção.
Bom, vamos aos esclarecimentos: quando eu gritei o seu nome no centro da cidade eu realmente achava que era você. De costas todo mundo é meio parecido. Eu só precisava passar um recado urgente que eu nem lembro mais o que é. Azar o seu. Aliás, quem foi que lhe disse isso? Algum fofoqueiro de plantão, com certeza. Na certa um daqueles seus amigos, exemplares autênticos do mal masculino. Não que eu esteja muito incomodada com isso, afinal você também não está longe de ser um. Mas isso não vem ao caso agora.
Outra coisa, na última sexta-feira, quando nos encontramos por acaso (porque eu jamais freqüentaria o mesmo lugar que você), foi mesmo um acidente ter deixado cair a bebida em sua roupa. Toquei nesse assunto porque não achei justo você falar com aquele “ar de convencimento” que eu faço de tudo para chamar sua atenção. Sinto muito, mas não foi isso que aconteceu. O lugar estava realmente cheio e foi inevitável esbarrar em você. Podia acontecer com qualquer um. Da próxima vez leve uma mulher que ocupe menos espaço com seus peitos siliconados, ok? E faça o favor de pagar uma bebida a mim. Não exatamente a mim, mas a pessoa que possa passar pelo mesmo constrangimento que eu. Mas não vou ficar ensinando-lhe a ser mais gentil porque eu já não preciso mais viver com a sua companhia. Nunca precisei, de fato.
Ah, e não precisa pedir para as minhas amigas me avisarem que você sabe que sou eu quem liga para sua casa e não fala nada. Por que eu faria isso? Se eu quisesse mesmo “falar” com você evitaria sua voz e mandaria um e-mail como estou fazendo agora. Aliás, eu nem tenho mais o número do seu telefone.
E pela última vez: não me ajoelhei na sua frente quando você ameaçou ir embora depois da nossa última crise de ciúmes. Eu estava amarrando os sapatos. As lágrimas são um exagero seu, foi apenas um cisco que caiu no meu olho.
(Sem mais para sempre).

sexta-feira, 29 de junho de 2012

Censura



Era inverno. A festa era de noite e se estenderia por toda a madrugada. As duas garotas deveriam ter em torno dos 17 anos na carteira de identidade, mas quando escolheram a roupa tinham mais. Muito mais. Chegaram causando torcicolos e olhares para a parte traseira de seu corpo. Não escondiam pernas e coxas e pareciam não se importar se algo mais aparecesse.

Encontrei-as no banheiro. Enquanto uma ajeitava o cabelo, a outra subiu em um suporte para ficar com o corpo inteiro visível no espelho e olhar seu modelito. Ajeitava a saia para que ficasse estupidamente no limite da censura, nem menos (e nem mais, é claro).

O que elas queriam daquela noite? Nunca saberei, jamais tinha as visto antes. Nunca perguntaria. Mas dali a pouco um homem passou a mão justamente onde elas tentavam a todo custo fingir que queriam esconder com o pouco pano.

- Seu idiota! Não tem respeito por uma mulher?  – se indignou a vítima.

Ele não entendeu. 

Mas então por quê mostrar do produto a sua frente e de graça? Penso que foi justamente isso que ele deve ter se perguntado, já que ninguém lhe disse que era só para olhar. Não havia ao menos um aviso!

E sobre respeitar uma mulher? Ele certamente não sabia. 

Nem ela.

quinta-feira, 28 de junho de 2012

Vontades





Vontade de um dia inteiro pra espreguiçar
pra ficar de pernas pro ar e esquecer o cansaço da esperaDesejar que logo amanheçaa cidade ganhe formae as pessoas na ruafaçam dobrar a solidão
Vontade de um sono profundo
sem interrupções
Um sonho, uma pílula, uma proteção
pra enfrentar a insônia
Encher a cabeça de coisas sem nexo
fingir que há importância em fatos banais
disfarçar a vontade de que o dia passe rápido
mais uma vez e depressa
Vontade de banho de chuva
chocolate, mãos dadas, abraço de madrugada
o vento que bagunça os cabelos na beira do mar
para se fazer repetir um tempo bom
E de novo esperar a noite
para contar em detalhes
falar da saudade
lembrar os minutos
Aquietar a mente só por mais um dia
para que a vontade
de tudo e nada ao mesmo tempo
passe logo, de uma vez
Mas se você viesse agora já estava bom
E depois eu pensaria o que fazer com os outros dias
e a vontade de você
que me desequilibra

*Oi, voltei! Vamos ver se agora eu atualizo esse blog com mais frequência...

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Especialista em generalidades

É comum os jornalistas se depararem com pessoas que deveriam servir como fontes, mas que acabam se ofendendo na hora de perguntinhas ou opiniões. Vou dar um exemplo. Hoje liguei pra uma delegada pra saber como ficaria a situação de um acusado de um crime (não vou dar muitos detalhes porque ela pode estar lendo e querer me prender hehe). Ela simplesmente me mandou procurar na lei.

Acho que todo jornalista que se preze sabe que fonte é aquela que a gente pode pegar (no bom sentido) e sentirá dor se a gente beliscar (algum professor da faculdade dizia isso). Se eu fosse citar a lei como fonte, qual o sentido em ter uma pessoa, com estudo, formação, sentimentos, opinião, etc, em um cargo tão importante? Ao invés de se sentirem honradas pelo serviço que prestam a sociedade que lêem o jornal, elas acham um estorvo procurarmos por elas.

Posso conhecer por cima as leis, a teoria da evolução, a história do Brasil, a biografia do presidente, a regra de três (bem por cima mesmo), mas não posso citar com minhas palavras o que eu penso ou aprendi. É por isso que sou jornalista. Sei de tudo um pouco e o mais importante: devo conhecer quem sabe. Se eu quisesse opinar seria a fonte especialista em determinado assunto ou um colunista.

Se eu estou perguntando e também sou cidadã, qual a chance de inúmeras pessoas nessa cidade, região ou estado também não saberem do assunto? É enorme. Logo, tá aí o dever em explicar, traduzir, tornar mais simples a informação escrita ou falada. É pra isso que servimos, pra sermos mediadores.

Seria tudo mais fácil se cada jornalista se formasse em alguma área específica ao invés de jornalismo, e só desenvolvesse os textos de assuntos que tem conhecimento. Mas aí, todo o sentido da profissão iria por água abaixo. Aliás, deve ter sido isso que pensaram aqueles ministros pensaram quando assinaram uns papeis dizendo que era jornalista não precisava obrigatoriamente ter diploma pra atuar. Na prática a gente percebe que só quando a gente vira repórter ou editor é que as pessoas tem tanta dificuldade em entender pra que serve a profissão.

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

Fase em depressão

Só quem já sentiu o aperto no peito de uma depressão, independente da intensidade, sabe o quanto essa doença pesa na alma. Incluo aqui aqueles que já se solidarizaram com a dor alheia e conviveram com quem passou por isso.

É inexplicável entender o porquê das lágrimas mesmo sem nenhum motivo aparente, da solidão no meio de muita gente, da força que te puxa de volta pra cama mesmo com o sol lá fora.

Pra mim, que exalo felicidade, sorrio o tempo todo, faço piada de tudo e falo besteiras, foi difícil aceitar que por trás disso tudo, eu estava infeliz. Sempre me gabei da minha fé, da minha gratidão a Deus pela vida, pela saúde, pelos amigos, pelas oportunidades... Mas em determinada época parecia que nada disso era suficiente. Eu sentia um buraco dentro de algum lugar lá dentro onde certamente ficam escondidas as nossas emoções. Era um vazio tão atormentador que tirava meu sono e minha paz.

Eu sentia como se alguém tivesse me arrancado as esperanças em viver. Eu já não era boa o suficiente no trabalho, na faculdade, na família, como amiga ou namorada. Eu olhava no espelho e me sentia feia. Eu ia em festas e via as pessoas se divertindo e aquilo me deixava mal, porque eu não conseguia estar assim também. Quantas vezes, na casa do namorado que eu tinha na época, eu caia no choro sozinha com vontade de ir pra casa, igual criança quando começa a ir pra escola pelas primeiras vezes. Eu me sentia fracassada. Em alguns meses eu tinha me tornado tudo o que eu nunca quis pra mim.

Claro que a depressão não surge do nada. No meu caso, um poço de sensibilidade, vários problemas, durante toda a vida, foram deixando marcas. Essas marcas não vão embora quando tudo fica bem. Elas permanecem com a gente, só que fraquinhas, quase não dão pra ver, mas elas estão ali. Até que uma hora a união de todas elas fez diferença e elas resolveram explodir bem em uma época da vida em que eu estava com os ânimos mais aflorados.

Era final de faculdade, o término de um sonho que eu almejei por anos e que só foi possível por causa da minha fé que eu citei lá em cima, quando eu ainda era forte o suficiente pra conquistar minhas coisas.

Junto com esse medo do final do curso, veio uma doença familiar que refletiu diretamente em mim. A coisa que eu mais detesto no mundo é ver as pessoas que eu amo sofrerem. Eu já tinha perdido o meu pai e só queria paz dentro de casa, mas o pesadelo estava longe de terminar.

Foi aí que eu pirei e quando eu me dei conta, minha mãe e meu irmão tavam implorando pra eu sair do emprego e ir ao médico antes que eu me prejudicasse. Ao contrário do que muita gente pensa, esse não é um momento de fraqueza. Tive que ter muita força pra ir contra minha teimosia e assumir que eu precisava de ajuda. E é só por isso que pude escrever tudo isso.

Essa semana voltei na minha psiquiatra. Fazia seis meses que não a via, já que ela está fazendo tratamento para um câncer e os horários das consultas não batiam. Dessa vez, muita coisa mudou. Hoje ela faz algumas anotações no caderninho dela e eu converso sem aquele aperto no peito que me sufocava.

Já faz cerca de um ano e meio que eu entrei pela primeira vez naquela sala. Com lágrimas nos olhos, eu mal conseguia dizer meia dúzia de palavras. A qualquer momento eu ia desabar. Contei tudo, sem medo de parecer ridícula.

Disse que não via mais sentido no trabalho ou no estudo, que eu tinha um TCC pra terminar e não sabia como fazer isso, falei do pavor de sair de casa, de ficar longe da família. Falei que sentia um sono fora do comum durante o dia, mas a noite o sono não vinha porque eu passava a madrugada chorando. Tinha muita tontura, dor de cabeça e dor de barriga, vontade de comer até explodir, ficava ansiosa só de pensar em sair com as minhas amigas, não tinha mais vontade de estar com meu namorado, nem com homem nenhum.

Agora eu que tenho vontade de perguntar como ela está, como vai o tratamento, mas fico na minha. Ela ainda é a médica da história. Às vezes até fico meio angustiada de ainda estar por ali, sendo que o sofrimento se inverteu. Mas só tenho a agradecer. O papo hoje é meu novo emprego, meu namorado novo, minha pós-graduação...

Talvez eu também a ajude a se recuperar mostrando que ela foi uma das responsáveis por essa mudança na minha vida e o empenho dela como profissional e cidadã tá sendo bem feito.

É claro que as minhas lágrimas ainda caem, mas eu dou conta de enxugá-las antes que molhem o travesseiro. Elas já não atrapalham meu sono e nem meu convívio social. A minha alma está anestesiada e eu tenho certeza que um dia ela vai estar livre de qualquer recaída.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Telefone e ameaça na redação

Em qualquer redação de jornal a realidade é a mesma: o telefone não pára de tocar, as janelas do MSN estão sempre piscando e a caixa de e-mail sempre tem novidades. Por maior que seja a redação (o que não é o meu caso) todos precisam apurar as notícias, escrever e é claro, atender o telefone.

Esses dias pela manhã foi uma ligação atrás da outra, principalmente com reclamações sobre a cidade e até por gente indignada com o que é escrito por colunistas do jornal, querendo uma desculpa ou uma explicação, mesmo que tenha o telefone e e-mail do cara que escreveu ali eles vem cobrar de qualquer um que esteja dentro do escritório, pode até ser a moça do café (se bem que onde eu trabalho, a sucursal é minúscula e todo mundo faz café).

Com essa correria, tem leitor que fica bravo quando os repórteres não dão uma solução imediata, desligam o telefone na cara e gentilezas do gênero. Tem gente que já tá tão cansada de reclamar pra Deus e o mundo que coloca no jornal sua última esperança e exige que a matéria seja publicada o mais rápido possível, como se não houvesse uma organização da página. Eles devem pensar que é só ir enchendo de texto até acabar o expediente e todo ir embora pra suas casas aliviado porque o dia terminou. Até já teve leitor que se ofereceu pra vir até aqui escrever a notícia.

Para quem não está nessa rotina, é difícil entender que o que sai no jornal não é decidido por uma única pessoa. Há uma equipe grande, onde todos precisam estar em sintonia. No fim, os repórteres acabam se acostumando e ouvindo todo o esporro de leitor até entender sobre o que ele está falando e encaminhar para o setor ou editor responsável. Quando o telefone não toca a gente até desconfia do silêncio.

Há mais de uma semana fomos ameaçados por um parente de vítima de assassinato. Por sorte cheguei uns minutinhos atrasada e não vi o barraco, mas as meninas que trampam nos classificados nem tiveram tempo de ler a matéria e deram de cara com o homem querendo bater em todo mundo. Como a gente vê de tudo nesse mundo e o cara fez aquela ameaça super comum: “isso não vai ficar assim”, precisamos de um segurança pra poder trabalhar.

Ontem um adolescente foi assassinado pela polícia e eu tive a coragem de ligar para o pai do guri. O cara só faltava me dar um soco pelo telefone de tão revoltado, como se a culpa fosse minha ou do jornal do filho ter sido morto. Ele disse pra eu cuidar com o que fosse escrito senão eu ia ver só – essa também é uma ameaça comum. O cara nem me deixou explicar que eu queria dar espaço pra ele se defender, já que o guri tava assaltando uma farmácia, mas ele desligou antes que eu pudesse defender a classe e dizer que a gente não inventou nada, a notícia veio da polícia.

No fim, ninguém apareceu por aqui revoltado e sobrevivemos a mais uma semana. Que venha segunda-feira e todos os perrengues do jornal diário...

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

Ossos (congelados) do ofício

É preciso muita coragem pra sair da redação com o frio que faz na quarta-feira pela manhã no sul do mundo. Pior ainda, é andar de moto-táxi. Há um momento da corrida em que os dedos doem, o vento parece rasgar a pele do rosto (sim, eu sou exagerada) e todo o corpo fica paralisado. Não usei capa porque depois ficaria em uma coletiva e era muita tralha pra carregar e por isso, peguei aquela chuva, que apesar de fininha molha bastante, pra poder tirar fotos de um acidente.

O jeito foi fechar os olhos e torcer para que aquilo acabasse logo. Na volta eu já estava traumatizada e voltei a pé para o jornal. Não que isso seja reconfortante, porque eu tremia do mesmo jeito. Mas pelo menos eu achava que teria um café quentinho me esperando... Quanta ingenuidade! O pessoal aqui da redação é movido a cafeína acabou com o meu único aliado ao frio. Mas eu não posso reclamar, já que não sou eu quem prepara o líquido milagroso... Espero que alguém se solidarize com este depoimento e evite fazer coletivas de imprensa ou bater o carro pela manhã. Se bem que já esquentou um pouco mais, mas as coisas sempre acontecem quando a gente está menos preparada.